As moedas digitais regionais, também conhecidas como moedas sociais ou comunitárias, surgiram como uma solução inovadora para reter riqueza dentro da comunidade e estimular o desenvolvimento local. Com paridade de 1:1 ao real, elas não substituem a moeda oficial, mas atuam de forma complementar, gerando inclusão financeira para vulneráveis e impulsionando o comércio interno.
Nos últimos dez anos, mais de 180 moedas sociais surgiram no Brasil, movidas pela necessidade de enfrentar desafios econômicos locais. Inicialmente, muitas circulavam em formato de papel, limitadas a bairros ou pequenos municípios. Com a digitalização, via plataformas próprias ou cartões pré-pagos, essas moedas ganharam agilidade e alcance.
O projeto E-Dinheiro Brasil, iniciado em 2014, permitiu a transição de 52 bancos comunitários/municipais para sistemas digitais, atendendo exigências do Banco Central. Esse avanço tecnológico deu origem a plataformas de pagamentos mais seguras e transparentes, ampliando a confiança dos comerciantes e cidadãos.
Os resultados mostram um crescimento consistente na última década. Entre 2021 e 2024, foram realizadas mais de 12 milhões de transações, movimentando cerca de R$ 1 bilhão na economia local. Esses números refletem o poder de estimular o consumo interno local e promover o desenvolvimento de novos negócios.
Veja abaixo alguns exemplos representativos:
No caso de Mumbuca, lançado em Maricá, cada beneficiário recebe R$ 46 mensais, injetados diretamente no comércio local. A taxa de 1% na troca por reais financia a manutenção da plataforma e microcrédito de juros zero, construindo confiança popular em soluções comunitárias.
Aratu, na Bahia, ampliou seu quadro de 32 para 350 empreendedores em apenas dois anos. A iniciativa em parceria com blockchain e Chainlink promove inovação financeira comunitária descentralizada, garantindo auditoria em tempo real e transparência total.
Outras moedas no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, como Justos, Semear e Verde, replicam esse modelo, mostrando que o sucesso de Maricá e Indiaroba serve de inspiração para mais de 170 comunidades.
A adoção de plataformas digitais foi crucial para o crescimento das moedas regionais. A plataforma E-Dinheiro Brasil conecta sistemas Web2 e Web3, possibilitando a emissão e controle em blockchain. Integração com contratos inteligentes e oráculos garante segurança e confiabilidade nas transações.
Além disso, projetos-piloto de integração com Drex, a futura moeda digital do Banco Central, estão em discussão. Essa sinergia pode ampliar benefícios, ao unir a robustez de uma CBDC com soluções locais flexíveis. Cartões físicos e aplicativos móveis facilitam a experiência do usuário, tornando o uso cotidiano simples e intuitivo.
As estruturas de governança variam: algumas moedas são geridas por cooperativas, outras por bancos municipais ou consórcios de empreendedores. Em todos os casos, há foco em transparência e participação comunitária, com conselhos locais que decidem parâmetros de emissão e taxas.
Apesar do avanço, ainda há desafios relevantes. O ceticismo inicial e questões legais, como o monopólio do Banco Central sobre emissão de moeda, demandam regulamentação clara. A Lei nº 15.068/2024 reconheceu oficialmente as moedas sociais na economia solidária, mas harmonizar as normas segue complexo.
A expansão nacional depende da replicação de plataformas robustas, parcerias público-privadas e capacitação local. O apoio de universidades como Coppe/UFRJ e FGV tem sido essencial para estudos de impacto e desenvolvimento de modelos sustentáveis.
Para o futuro, espera-se que a tecnologia blockchain evolua na oferta de soluções mais escaláveis, seguras e de baixo custo. A convergência com stablecoins de real e a CBDC Drex promete integrar as moedas regionais a um ecossistema financeiro mais amplo, ampliando alcance e eficiência operacional.
Em um cenário de transformação digital acelerada, as moedas digitais regionais mostram-se como instrumentos poderosos de desenvolvimento local e inclusão social. Ao unir inovação tecnológica, governança participativa e foco no bem-estar comunitário, essas iniciativas pavimentam um caminho promissor para fortalecer economias e construir um futuro mais justo e sustentável.
Referências