A crescente popularidade das criptomoedas tem despertado interesse global, especialmente em países onde o sistema bancário tradicional falha em atender a parcela significativa da população. Em nações emergentes, esse movimento vai além de uma moda tecnológica: representa uma busca por autonomia e redução de custos e tempo de transações em economias fragilizadas.
Segundo o Banco Mundial, até 42% dos adultos na América Latina e Caribe e 24% globalmente permanecem sem conta bancária. Nesse cenário, as criptomoedas emergem como uma ponte que conecta populações marginalizadas ao mercado financeiro digital.
Em países de renda média e baixa, onde o baixo acesso a serviços bancários limita oportunidades, a penetração de moedas digitais cresce de forma exponencial. Dados da Statista apontam que 32% da população nigeriana já utilizou criptomoedas, seguida pelo Vietnã (21%), África do Sul (17%), Turquia (16%) e Peru (16%).
Além disso, o Global Crypto Adoption Index da Chainalysis coloca a Índia em primeiro lugar (93,5 milhões de proprietários), Nigéria em segundo e Vietnã em terceiro. A América Latina registrou aumento de 63% em atividade on-chain, enquanto a Ásia-Pacífico e a África Subsaariana cresceram 69% e 52%, respectivamente.
Atualmente, 75% das transações globais em criptomoedas ocorrem em países em desenvolvimento, refletindo o potencial dessas tecnologias para preencher lacunas financeiras onde bancos e ATMs são escassos.
Esses números confirmam uma transformação digital guiada por necessidades reais, mais do que por especulação: as criptomoedas permitem transações rápidas e seguras em regiões sem infraestrutura bancária robusta.
As razões que levam indivíduos a adotarem criptomoedas em países em desenvolvimento são múltiplas. Em locais como Argentina, Venezuela e Zimbábue, a inflação crônica corrói rapidamente o poder de compra, impulsionando cidadãos a protegerem seus recursos em ativos digitais.
Em muitos casos, controles de câmbio rígidos impedem a livre movimentação de capitais. Em resposta, usuários recorrem a exchanges P2P para enviar e receber remessas, evitando intermediários e taxas que podem superar 7% do valor transferido.
Adicionalmente, a informalidade do mercado de trabalho em áreas rurais e periferias urbanas faz com que milhões de pessoas operem quase exclusivamente em dinheiro vivo. A adoção de criptomoedas oferece acesso eletrônico a pagamentos, promovendo inclusão e pequenas iniciativas de comércio, sem depender de bancos.
Paralelamente ao crescimento das criptomoedas descentralizadas, mais de 90% dos bancos centrais pesquisam ou testam suas próprias moedas digitais. Exemplos de lançamento incluem o e-Naira na Nigéria, o Sand Dollar nas Bahamas, o ZiG no Zimbábue e o JAM-DEX na Jamaica.
No Brasil, o Drex avança em fase piloto, integrado ao Pix, buscando reduzir custos de intermediação e acelerar a inclusão de não bancarizados.
Para que tais iniciativas sejam bem-sucedidas, é necessário contar com infraestrutura digital robusta e resiliente, além de campanhas de divulgação e treinamento de usuários.
Stablecoins atreladas a moedas fiduciárias têm ganhado espaço como alternativas menos voláteis às criptomoedas tradicionais. Na cidade de Lugano, na Suíça, moradores já podem pagar impostos e serviços públicos em Tether (USDT) e outras stablecoins.
Fintechs locais em países como Brasil e Filipinas combinam wallets de stablecoin com micropagamentos, ampliando o alcance de serviços financeiros em zonas urbanas e rurais, e criando uma rede híbrida entre o sistema tradicional e o ecossistema cripto.
Apesar dos avanços, ainda existem barreiras consideráveis. A conectividade limitada em áreas remotas e a falta de alfabetização digital comprometem a adoção em larga escala. A volatilidade dos ativos, quando não compensada por stablecoins, expõe usuários de baixa renda a riscos financeiros.
A regulamentação é outro ponto crítico: marcos legais inconsistentes ou ausentes podem gerar insegurança jurídica e afastar investimentos. A tributação, como a alíquota fixa de 4% no Chile ou a isenção parcial de ganhos de capital nos EUA, também influencia decisões de usuários e empresas.
Para mitigar esses riscos, governos e organizações devem promover educação financeira inclusiva e acessível, definir normas claras e equilibradas, e fortalecer parcerias público-privadas que ampliem a infraestrutura e a adoção de tecnologias digitais.
No horizonte, a interação entre criptomoedas, CBDCs e stablecoins poderá gerar um sistema financeiro mais justo, no qual cada indivíduo escolha o instrumento mais adequado às suas necessidades. A interoperabilidade entre plataformas, aliada a padrões globais de segurança e transparência, será fundamental para consolidar essa nova realidade.
Em suma, as criptomoedas em países em desenvolvimento não são apenas um recurso tecnológico, mas uma ferramenta de transformação social. O futuro da inclusão financeira passa por políticas inovadoras, colaboração global e o engajamento efetivo daqueles que hoje permanecem à margem do sistema bancário tradicional.
Referências